Não aprendi dizer Adeus…

É com pesar que escrevo esse post de despedida. Não do blog mas de uma parte importantíssima da minha vida. Perdi meu melhor amigo, Jorge Leite. Ele que esteve presente em todos os momentos da minha vida nos últimos 13 anos partiu levando meu abraço e a certeza do meu amor.

Conheci o Jorge no primeiro dia de aula da faculdade de jornalismo, ele sentou na carteira atrás da minha. Ele usava jeans e uma polo branca listrada, uma bolsa transpassada, óculos e o cabelo partido de lado. Eu estava precisando de um errorex e quando virei de costas, lá estava ele, todo sério. Eu sempre muito gaiata, nem aí, pedi o errorex e ele com um sorriso tímido me emprestou. Essa é a última lembrança que tenho desse dia, porque desde dali eu contei com ele todos os dias da minha vida até domingo, 26 de maio.

O Jorge é um homenzarrão, mas por dentro um menino. Um menino que precisa de amor e compreensão, de se sentir acolhido, protegido. E talvez esses sentimentos tenham feito florescer a nossa amizade. Não só a minha com ele, mas também da Carla e Monalisa, nós quatro como um todo. Quando elas se chegaram mais, lembro de ele relutando em aceitá-las. Como um menino implicante, ele fechava a porta do elevador na cara da Carla e curtia com a cara da Monalisa com comentários ácidos, tudo da boca para fora. Até o dia de fazermos um trabalho da aula de fotojornalismo que eles três saíram juntos e de lá não se desgrudaram mais. Cada uma de nós com nossas características diferentes, acolhemos o Jorge como um irmão mais novo, aquele irmão indeciso que sabe o que quer mas esbarrava no medo de tentar. Lembro especificamente de um dia na aula, durante o intervalo, que ele estava murmurando sobre a vida. Eu e Monalisa demos um sermão nele, que ele não poderia pensar negativo, que ele sempre acreditasse nele e que quem estivesse incomodado com ele que se mudasse. Acredito que ali ele percebeu que por cima de nós ninguém passa e que estaria sempre protegido por três mulheres fortes que gostavam dele pelo que ele era, mesmo num dia ruim.

O tempo foi passando, fomos ficando mais velhos, as meninas casaram, e eu e o Jorge estávamos sempre ali, juntos, tipo par de vasos. Tinhamos os mesmos interesses, a vontade de viver a vida plenamente, livre para viajar, para estudar e encarar os desafios que ainda estavam por vir. Todo santo dia a gente se falava, não tinha um dia que eu não mandasse um meme que seja, mesmo que ele só visualizasse e não me respondesse eu sabia que ele tinha rido das minhas leseiras. Ele é assim, parceiro.

Além de um super amigo, é um super filho. Dedicava-se em estar ao lado dos pais e da família, falava sempre com carinho da tia Tânia e do Tio João, Tia Ana, Sheila e Joyce. Seus afilhados, seus xodós, em especial José e Sofia e Maria Julia. Sempre mandava mensagens quando estava com as crianças, falava de como tinha passado o dia brincando com elas mas que as costas já estavam ficando doídas. E nós, dois anos mais velhas dizíamos rindo: Maninho, tu não mais é gatinho. Tu já tem 30 anos! E isso assustava um pouco meu amigo, assim como todos nós que fazemos a transição da juventude para a vida adulta. Ele ficava sério por um segundo mas depois dava uma risada, aquela risada alta com a cabeça levantada, característica dele, como se aceitasse que a idade chega para todos.

O Jorge sempre foi muito diplomático e altivo. Coisa de libriano, ele dizia. Quando ele disse que começaria a faculdade de Direito, disse que a profissão era perfeita para ele. Logo me disse que não pretendia advogar mas se tornar juiz. Era visível o quanto ele estava empolgado e feliz por trilhar um novo caminho. Isso transparecia no empenho com os estudos, nos júris simulados e por ter sido eleito representante de classe. As vezes sua diplomacia dava espaço para seu humor ácido. Eu morri de rir no dia que ele me contou que pediram uma foto do caderno dele, das anotações da aula. E ele mandou uma foto do caderno ao invés das anotações. Coisa que só quem conhecia a natureza dele sabia que ele faria, Monalisa e Carla estão mais que acostumadas.😂

Tudo aconteceu tão bruscamente que é difícil falar no passado sobre o meu amigo, meu irmão. A última vez que nos vimos e demos um abraço foi no sábado, durante a visita no hospital, aqueles dez minutos que valeram como uma vida inteira. Todo mundo diz que devemos ser gratos e dizer o quanto amamos aqueles que escolhemos ter ao nosso lado. E pela primeira vez eu entendi o porquê. Durante todos esses anos, eu e o Jorge nunca brigamos, nunca nos estranhamos. Fizemos uma troca, onde um ensinou ao outro coisas que só nos dois sabemos e que talvez nem tenhamos percebido por que o tempo passou rápido demais.

Não aprendi dizer Adeus e talvez nunca saiba o que é isso porque eu o tenho meu coração. Eu nunca perdi alguém tão próximo, mas passado o luto e toda a tristeza de uma perda prematura, e mesmo que as vezes a saudade venha em forma de lágrimas, eu tenho a certeza que fiz tudo o que podia pelo meu amigo, faria mais se ele me deixasse mas infelizmente nessa vida não será mais possível. Que numa próxima oportunidade possamos nos reencontrar e viver nossos sonhos plenamente, já conhecendo as lições desta vida. Que Jesus, em seu Misericordioso Coração o receba em seus braços e ajude nessa nova caminhada. 🖤 #RIP

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